Showtime

O que fazia a diferença para uma produção de sucesso dava muito, mas muito, trabalho

Pouca gente sabe que na década de 70, no Brasil, um álbum com 12 faixas (disco de vinil, chamado de LP e que girava no prato da vitrola a 33 rpm) demorava de 8 a 10 meses para ser gravado e mixado. Depois ia pro “corte”. Era chamada assim a tecnologia utilizada na época para fazer a “madre”, em uma máquina na qual uma cápsula com uma agulha especial ia “rasgando” a massa de vinil, fazendo o sulco e inserindo as duas bandas (L/R) de áudio. Cada lado do LP (A e B) tinha um limite de tempo de áudio. A média de tempo para um bom “corte”, sem distorções, era de 20 minutos.

A máquina de "Corte" (foto ilustrativa)
A máquina de "Corte" (foto ilustrativa)

O sampler não existia, era preciso criar tudo na hora e os recursos eram poucos. Muitas vezes eu me perguntava: “como é que os Beatles fizeram, tudo o que fizeram, em 4 canais?” Qualquer coisa que viesse depois da base já gravada em 2 canais, (bateria, baixo e percussão) era gravada em uma nova “soma” de canais.

Se eu quisesse colocar um “efeito” como, por exemplo, o som de água escorrendo como num riacho, era preciso gravá-lo conectando-se vários cabos com conexão “canon” da técnica até o banheiro mais próximo, de preferência de madrugada quando o silencio era quase total, posicionar o microfone, abrir a torneira e gritar “ok”. O técnico gravava 3 ou 4 minutos de água escorrendo em uma fita de ¼, em velocidade 7½ ou 15rpm, estéreo, e, voilà, o efeito estava pronto para ser utilizado. Não havia CDs com efeitos como os de hoje em dia. Eu tinha uma fita gravada por mim ao longo do tempo, com vários efeitos que eu usava muito em minhas produções.

Havia também um limite de tempo nas faixas, que, em média, era de 3’30”, e deveria ser respeitado, caso contrário nas rádios os caras começariam falar o texto da propaganda em cima do final da música.

No Brasil não havia escolas para formação de engenheiros de áudio. Eram todos autoditadas ou, no máximo, técnicos. Assim também eram os produtores musicais. O sucesso no mercado ou de publico, do artista ou do produto artístico, dependia mais da sorte do que do conhecimento, da técnica ou do talento dos profissionais envolvidos. Sempre houve pouco conhecimento e escassez de equipamentos periféricos para dar o suporte necessário e nos ajudar a acompanhar a qualidade na produção musical que, todavia, se observava no mercado internacional, principalmente nos Estados Unidos, passando pela Inglaterra, França e, por fim, a Itália.

Isto explica, em parte, a diferença de qualidade que sempre houve entre as gravações feitas por aqui e as gravações feitas nos países acima citados. O que sempre tivemos, apesar de tudo, e em grande quantidade, foram músicos de talento e criatividade.

O talento e a criatividade não se compram ou se aprendem. Quem tem já nasce assim. Talvez, por isso, a música brasileira foi se desenvolvendo de uma forma tão livre, diversificada, e, mesmo sem suporte e aos trancos e barrancos, chegou a ser considerada com o chorinho, a bossa nova e a MPB, a melhor música popular do mundo. É comum, no Brasil, se conhecer mais sobre músicos de outros países do que sobre os músicos brasileiros, que, no entanto, são muito conhecidos e admirados mundo afora.

Villa Lobos | Foto: divulgação
Villa Lobos | Foto: divulgação
Tom Jobim | Foto: divulgação
Tom Jobim | Foto: divulgação

As dificuldades técnicas da era analógica e as questões econômicas sempre impuseram aos músicos e artistas brasileiros uma enorme exigência no que diz respeito a criatividade e talento.

Não era nada fácil para um artista ser contratado pelas gravadoras. O custo da produção musical era muito alto, pois os gastos com produtor, arranjador, copista, músicos (piano, baixo, bateria, percussão, cordas, vocal, metais), artes gráficas, estúdios e divulgação, não podiam ser evitados.

Sepultura, um dos grandes exemplos no metal de músicos brasileiros que se tornaram muito conhecidos e admirados mundo afora | Foto: divulgação
Sepultura, um dos grandes exemplos no metal de músicos brasileiros que se tornaram muito conhecidos e admirados mundo afora | Foto: divulgação

O projeto musical tinha que ter uma possibilidade quase certa de dar o retorno comercial que as gravadoras pretendiam, e aí é que entrava o produtor musical e seu talento em transformar algo abstrato em um produto artístico e vendável. O mercado brasileiro crescia e era um dos mais rentáveis do mundo. O preço do LP era em média 10% do salário mínimo e os discos eram vendidos aos milhões. O Brasil era o único país no mundo onde a música nacional sempre vendia mais do que a musica americana. Um fenômeno, em parte, explicado pelo tamanho do nosso território, as várias culturas regionais e centenas de gêneros musicais de aceitação popular.

Com a mudança do sistema de analógico para digital, e o posterior mp3, a aceitação pelos meios de comunicação das produções baratas (por exemplo, a MTV) foi imediata. O custo operacional desta nova tecnologia tornou a produção acessível para todos os novos artistas e produtores independentes que surgiram. No entanto, passado o primeiro momento de euforia, o mercado quebrou, a indústria foi reduzida a quase nada e as gravadoras tornaram-se agentes empresariais. Agora é cada um por si e o mercado pra todos. Todo mundo é artista, e, por esta razão, a qualidade da maioria do que se ouve é pra lá de duvidosa, algumas vezes desprezível.

Hoje em dia, em nenhum lugar se faz a melhor música do mundo. Na maioria das produções do pop e do rock não há mais a variedade artística nem a beleza sonora que encantou a minha geração. Tudo está padronizado. Todos usam a mesma tecnologia digital e do mesmo jeito.

Em tempos de “showtime”, o que mais interessa é ver, ser visto e jogar na “rede”. Para esta “geração celular”, ou “geração mp3”, a música é só mais um detalhe.

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