Foi-se a época boa, na qual músicos e técnicos de som descobriam algo interessante para as gravações de discos

Mike Pinder, desbravador do Mellotron e mestre do "soundtime" | Foto: reprodução
Mike Pinder, desbravador do Mellotron e mestre do "soundtime" | Foto: reprodução

Tenho saudade do tempo do “soundtime” que, por necessidade, os timbres dos instrumentos eram criados a cada gravação que se fazia. Do jeito que os Beatles, Jimi Hendrix e alguns outros músicos fizeram na década de 1960.

Tem coisa que até hoje, mesmo com o recurso moderno do MIDI (em português, Interface Digital para Instrumentos Musicais, que possibilita que os instrumentos musicais eletrônicos conversem entre si, bastando que sejam midi e, se utilizem deste protocolo de comunicação) e do sampler, não se consegue fazer. Era tudo obra do acaso, da pesquisa no estúdio.

Os músicos e técnicos, curiosos, criativos, sempre descobriam alguma coisa nova e interessante para utilizarem nas gravações do pop e do rock. Como o Mellotron, descoberto para o rock pelo tecladista Mike Pinder, do The Moody Blues, e que foi levado emprestado pelo Ringo Starr para ser utilizado na gravação de ‘Strawberry Fields Forever’.

O Mellotron original | Foto: reprodução
O Mellotron original | Foto: reprodução

Quanto mais o tempo passa, mais iguais ficam as coisas. Não só no visual e no desempenho. A mesmice está se tornando um padrão sonoro, apesar de todas as parafernálias periféricas que possamos encontrar em um estúdio de gravação. Na maioria das vezes o que há é a falta da criatividade pioneira e o medo que a vaidade causa de não ser aceito, além, é óbvio, da falta de bom gosto para se criar algo com a beleza e a simplicidade das obras primas.

A qualidade das composições e dos arranjos regrediu tanto (com raras exceções) que a impressão que se tem é que, no futuro, o melhor que alguém irá fazer será redescobrir o passado e tentar reproduzi-lo.

Nos países desenvolvidos, desde os anos 1900, a preocupação era gravar com a melhor qualidade possível o som de uma bela voz humana ou reproduzir com fidelidade a beleza do som de um instrumento musical. Por exemplo: ‘What a Wonderful World’, dos compositores Bob Thiele e George David Weiss, na voz do trompetista Louis Armstrong, lançada em 1967, é um dos melhores registros que se tem da voz humana em uma gravação de estúdio.

Louis Armstrong | Foto: reprodução
Louis Armstrong | Foto: reprodução

É uma somatória de qualidades, com ótima composição, arranjo, interpretação e gravação de áudio. Ouvi-la em uma boa técnica de estúdio profissional foi um dos maiores prazeres que tive na minha experiência como produtor musical. Hoje em dia quase não ouço nada com esta qualidade. Também, pudera, a maioria dos intérpretes só gritam músicas ruins. É a moda do dança e grita. Atualmente boas melodias são muito raras. O timbre bonito de uma voz humana cantando uma canção.

Não se pode mais correr riscos. É tudo uma questão de custos. A composição não tem mais muita importância em uma sociedade de consumo. A sonoridade também não. A produção musical tem que ser boa, bonita e barata. O que vende é a imagem do artista, hoje mais do que nunca. O tempo do “soundtime” já passou, agora, é hora de “showtime”.

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