Max Cavalera continua buscando se reinventar

Soulfly: Mike Leon, Max Cavalera, Zyon Cavalera e Marc Rizzo | Foto: Rodrigo Fredes

Existem certos tipos de artistas que não gostam de ficar parados. O vocalista e guitarrista Max Cavalera é um desses. Atualmente, equilibra suas atividades entre o Soulfly (sua banda principal desde 1997) e o Killer Be Killed, mas resolveu revisitar seu álbum com o Nailbomb, tocando-o na íntegra ao vivo. Na entrevista a seguir, Max fala sobre isso, o Cavalera Conspiracy, o sentimento ao sair do Sepultura e a vontade de fazer ainda outros projetos.

Você vem tocando o álbum do Nailbomb, “Point Blank”, inteiro com o Soulfly nessa turnê. Como é o show?
Max Cavalera: Já fizemos uma parte da turnê em agosto e essa é uma continuação. Nos divertimos muito. Foi uma ideia que tivemos após a turnê “Return To Roots” que fizemos com meu irmão (Igor Cavalera) e foi muito bem recebida. Aí, decidi trabalhar com outra coisa de antigamente que era o Nailbomb. É um álbum ‘cult’, que muitas pessoas gostam. Tentamos e foi muito legal com uma turnê bem underground ao lado de Cannibal Corpse e Noisem. Aí decidimos fazer de novo, adicionando algumas coisas como “While You Sleep I Destroy Your World”, que está apenas no álbum ao vivo. Poderemos ainda tocar um cover do Dead Kennedys e até uma música do álbum novo do Soulfly, que sai no verão (no hemisfério norte).

Max Cavalera | Foto: Ricardo Ferreira

Se dependesse de mim eu teria feito mais álbuns do Nailbomb. Gosto muito de todo conceito e ideia do projeto. Mas Alex não queria mais fazer álbum” – Max Cavalera

Como foi o conceito original do álbum Nailbomb? Você estava fazendo umas jams com Alex Newport do Fudge Tunnel e isso virou um álbum. Em qual o ponto dessas jams que você percebeu que elas precisavam virar um álbum e disponibilizá-las para os fãs?
Cavalera: Na verdade nem eram jams. Ele me pediu para mostrar a ele como fazer os riffs no estilo do Sepultura e eu pedi a ele que me mostrasse os do Fudge Tunnel, que eu adorava. Começamos a compor algumas coisas e Alex comprou um sampler. Ele estava muito curioso sobre o uso disso e começou a samplear tudo, fazer beats eletrônicos com bateria eletrônica e aí colocamos umas guitarras nisso. Não íamos lançar um álbum, só estávamos nos divertindo. Um dia a Gloria (N.T.: mulher e empresária de Max) entrou na sala, ouviu e achou sensacional. Sugeriu que transformássemos em um álbum, mas nós rimos da ideia. Mas ela ligou para a Roadrunner e conseguiu um contrato para nós e quando percebi tínhamos um orçamento para entrar no estúdio e fazer o álbum. Foi legal porque não foi nada forçado.

E por que você nunca revisitou esse projeto para fazer um segundo álbum? O que o primeiro tinha que era tão único que não necessitava de uma parte dois?
Cavalera: Isso é por causa do Alex. Se dependesse de mim eu teria feito mais álbuns do Nailbomb. Gosto muito de todo conceito e ideia do projeto. Mas Alex não queria mais fazer álbum, estava se encaminhando para o lado da produção. Ele odeia tocar ao vivo, o que não é bom para alguém que está em uma banda. Tendo isso em mente, decidimos matar o Nailbomb nós mesmos (risos). Mas nós nunca pensamos em tocar ao vivo. Depois disso, o Sepultura tocou covers do Nailbomb, o Soulfly tocou covers do Nailbomb e o Cavalera Conspiracy tocou covers do Nailbomb. Foi por isso que decidi tocar o álbum inteiro.

Quando precisa tocar algo que não toca por completo há 24 anos, como isso o afeta como músico? Percebe que não toca mais nesse estilo e precisa adaptar para o modo atual? Como fazer, artisticamente, para voltar ao clima de 24 anos atrás?
Cavalera: Com o material do Nailbomb é um desafio para o Soulfly. Esse álbum é bem eletrônico então temos que transformar isso em algo orgânico para uma banda tocar. Mas colocando os samplers em cima, soa um pouco como é o Ministry ao vivo hoje em dia, é uma boa comparação. Gosto muito de tocar as músicas que nunca tocamos antes, como “24 Hour Bullshit” e “For Fuck’s Sake”. E claro, as mais conhecidas como “Wasting Away” e “Cokroaches” que muitos fizeram cover. Ouvi outro dia uma versão da primeira feita pelo Misery Index, o que me deixou bem feliz.

Igor e Max Cavalera | Foto: Tom Barnes

O ‘Psychosis’ do Cavalera Conspiracy foi gravado logo depois dessa turnê do ‘Roots’ e acho que conseguimos levar a energia e a empolgação dela para o estúdio” – Max Cavalera

Recentemente, você fez a turnê “Return to Roots”, algo que também volta atrás mais de vinte anos. Como foi isso? Teve alguma influência no modo como está compondo para o novo álbum do Soulfly? Você se redescobriu de alguma forma?
Cavalera: Foi ótimo para mim. Acho bem legal ter um pouco de seu trabalho antigo no atual, porque sempre pode aprender com que fez antes. Isso influencia seus trabalhos futuros. O álbum “Psychosis” do Cavalera Conspiracy foi gravado logo depois dessa turnê do “Roots” e acho que conseguimos levar a energia e a empolgação dela para o estúdio. Significa muito quando a música que você faz com um propósito alcança tantas pessoas. Acho que essas coisas andam juntas e tenho sorte de ter um catálogo antigo enorme com o qual posso trabalhar e ao mesmo tempo sempre lanço coisas novas. Mas isso realmente ajuda.

Você citou o Cavalera Conspiracy. Depois que deixou o Sepultura, lançou o Soulfly, já havia tido o projeto do Nailbomb, teve o Killer Be Killed. Como faz para compor para tantos projetos e por que não lançar tudo como o Soulfly ou Max Cavalera? Porque deve ser complicado falar com promotores e gravadoras e explicar que são bandas e estilos diferentes. Por que não deixar tudo sob o nome Max e fazer o que bem entende?
Cavalera: Sim, é um pouco confuso, mas acho divertido também. Me faz ter que ir fundo para fazer todas essas coisas soarem diferentes. E acho que até agora, na maior parte das vezes, fui bem sucedido. Quando você me ouve no Killer Be Killed, é bem diferente do Cavalera Conspiracy, que é diferente do Soulfly. Então, tudo se resume a esticar o quanto puder suas habilidades, ideias e influências. Acho legal, porque no Soulfly posso voltar àquela coisa tribal do metal que eu adoro, especialmente no novo álbum que acho que está bem num estilo death/thrash tribal. O “Roots” e o primeiro do “Soulfly” são apenas tribais, então decidi misturar tudo. Percebo como isso pode ser confuso até mesmo para os fãs, mas no fim das contas adoro ter todos esses projetos, me fazem um músico melhor.

É bem incrível o que está fazendo, já que equilibra três bandas. Já é complicado fazer os fãs seguirem uma banda ou duas, três é admirável. Em algum ponto poderá haver um quarto projeto? Há algum estilo que gostaria de tocar sob outra banda? Vou soar meio besta, mas, faria um álbum de country, r&b ou algo bem diferente só porque quer tentar e fazer algum outro projeto?
Cavalera: Por enquanto não. Não tenho a ambição de fazer nada assim. A outra área que ainda não tentei e é bem mais próxima do que eu faço é o metal extremo, porque sempre adorei bandas como Immolation. Eu tenho na minha cabeça fazer algo como o Probot de Dave Grohl (N.T.: projeto de metal do guitarrista/vocalista do Foo Fighters, que convidou vários de seus vocalistas prediletos), no futuro. Compor um álbum inteiro e convidar meus vocalistas prediletos para cantarem uma música.

Max Cavalera | Foto: Ricardo Ferreira

Acho que o ‘Chaos A.D.’ é um álbum de riscos assumidos. Quando o mencionei com relação ao Soulfly, tem mais a ver com o clima geral do álbum e não tanto com as músicas” – Max Cavalera

Você falou que o sucessor de “Archangel” terá partes que lembram o “Chaos A.D.”, do Sepultura. O que esse álbum tem que o faz se destacar como um que realmente representa um momento especial?
Cavalera: Acho que a combinação de groove com velocidade foi muito bem feita. Especialmente vindo logo depois de “Arise”, que é um álbum muito forte de thrash. Muitos imaginaram o que faríamos depois daquilo e nós respondemos com “Chaos A.D.”, que é bem diferente de “Arise”, ambicioso e corajoso. Poderíamos ter ido na segurança e feito “Arise pt. 2”, seria perfeito e todos iriam adorar. Mas não queríamos isso, queríamos arriscar mais. Então, acho que o “Chaos A.D.” é um álbum de riscos assumidos. Quando o mencionei com relação ao Soulfly, tem mais a ver com o clima geral do álbum e não tanto com as músicas. Há muito groove no estilo “Slave New World” e “Territory”, percussão e elementos tribais. Há músicas com cânticos dos índios Navarro, há músicas que são totalmente thrash/death que lembram os primórdios. Também tem o fato de Josh Wilbur ser o produtor. Josh é um grande fã de Andy Wallace, que foi o produtor de “Chaos A.D.”. Eu falei mesmo isso, mas no fim das contas acho que o álbum terá uma vida própria.

Quero falar sobre 1996, quando decidiu sair do Sepultura. Tinham lançado álbum memoráveis na esfera do metal como “Arise”, “Chaos A.D.” e “Roots” e a banda estava em ótima fase. Como foi aquele momento em que não estava mais na banda? Foi de autoconhecimento, depressão, confusão sobre ter que começar tudo de novo?
Cavalera: Sim, foi tudo isso. Os primeiros três meses foram de depressão total. Não queria nem mais tocar de tão decepcionado que estava com tudo. Você trabalha sua vida inteira com um objetivo e a hora que eu percebi não tinha mais a banda. Me senti muito desolado, sem esperança nenhuma. Mas aos poucos, pessoas me ajudaram a voltar e fui encorajado por muita gente, como Ozzy por exemplo. Fomos jantar na casa dele e fui muito legal de sua parte dizer que só dependia de mim para me levantar. Gloria também foi sensacional, me fazendo voltar a trabalhar e compor. Fiz uma demo com duas músicas – “Eye for na Eye” e “No” – e ela impressionou Monte Conner da Roadrunner quando ouviu numa fita cassete. Daquele momento em diante, nunca mais olhei para trás.

E qual foi a parte mais difícil de iniciar o Soulfly: ser você sem seus companheiros de banda com todo o peso sobre seus ombros, encontrar uma gravadora, ter ideias para merchandising? Foi mais difícil mentalmente ou financeiramente?
Cavalera: Acho que foram todas juntas (risos). Havia pressão de todos os lados. Sim, não tínhamos muito dinheiro, eu tinha que compor músicas legais porque iriam me julgar com base no que fiz anteriormente. E fiz coisas de nível bem alto. Então, era melhore fazer coisas boas ou ninguém iria gostar e era o fim. Mas nunca pensei nessa possibilidade. Eu meio que me recusei a ter esse tipo de pensamento e só compus o que vinha do coração. É a única coisa que sei fazer e a música é minha arma. Foi assim que as músicas do primeiro álbum nasceram: absolutamente honestas e do coração. Tudo é verdadeiro.

Soulfly: Mike Leon, Max Cavalera, Zyon Cavalera e Marc Rizzo | Foto: Rodrigo Fredes

Transcrito e traduzido por Carlo Antico.

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