Não precisa ser, basta parecer

O que aconteceu com a música popular após o alto faturamento da Beatlemania? Por que razões houve um claro retrocesso na qualidade artística, mesmo com o avanço tecnológico?

Sala A do Mosh Studios: uma UTI criativa | Não precisa ser, basta parecer | Artigo por Jorge Gambier | Rockrama
Sala A do Mosh Studios: uma UTI criativa | Foto: divulgação

Nos anos setenta quando comecei minha carreira profissional como produtor musical, eu não sabia, mas tinha uma ideia completamente equivocada sobre o futuro da música popular no mundo. Por aqui os dias eram agitados e, em plena ditadura militar, que muita gente pensa que foi brincadeira.

A criatividade musical era intensa. Apesar da censura que nos cerceava o tempo todo, os compositores populares criavam maravilhas musicais e muitos interpretes eram fantásticos. Não posso citar somente alguns pois eram tantos que certamente eu cometeria alguma injustiça. Por esta razão eu imaginava que no futuro a música popular brasileira que, àquela época já era considerada uma das melhores do planeta, seria inigualável, não só como produto mas também como obra de arte.

No mundo todo, o sucesso extraordinário de vendas dos Beatles provocou na arte e em todos os seus gêneros populares, o surgimento de novos e talentosos artistas. Afinal, em 1969 a banda havia terminado, mas a indústria e o mercado precisavam continuar vivos e faturando alto, como já estavam acostumados na Beatlemania.

A composição, a criatividade, a sonoridade, os timbres, e a interpretação, compunham a personalidade artística de todos eles e, à exemplo dos Beatles, à cada lançamento, a expectativa do que haveria de novidade no instrumental, na sonoridade e na performance, era enorme.

Nos países desenvolvidos o público sempre exige qualidade e a música não foge à regra. Por esta razão, a qualidade técnica das gravações evoluiu sem parar até hoje, do analógico ao digital. Mas com o passar do tempo houve um retrocesso nas artes e a qualidade foi pro brejo. A quantidade tornou-se mais relevante. Há um motivo pouco levado em consideração e que é, em minha opinião, talvez o mais significativo: o aumento assustador da população mundial.

O futuro tornou-se presente e, como ainda estou vivo, hoje eu sei que nada do que imaginei aconteceu. O que deu errado? O que foi que mudou? A resposta está na política e na economia? Sabemos que a verdade é a primeira vítima do retrocesso político social em qualquer lugar e sabemos também que a primeira vítima de uma crise econômica, é a cultura. O reflexo danoso nas artes é imediato e duradouro e, foi exatamente isto que aconteceu no mundo.

O rápido aumento da população implicou na impossibilidade de se manter a qualidade em tudo que o mercado oferece na educação, na saúde e como não poderia deixar de ser, nas artes. Na música, quase tudo tornou-se popularesco. As composições foram ficando cada vez mais ruins. A sonoridade foi ficando cada vez mais padronizada. A criatividade foi ficando cada vez mais por conta dos recursos técnicos no estúdio. As letras perderam a poesia e os intérpretes, só precisam dançar, declamar e gritar; cantar tornou-se um detalhe dispensável, e isto, fez de todo mundo artista nestes tempos computadorizados.

O que vende é a imagem sonora. A plateia quer ser vista e se postar pulando. Isto é o que os shows oferecem. Hoje em dia ser artista é parecer, ninguém precisa ser. A tecnologia e a mídia fazem tudo acontecer. Ao contrário do jogador de futebol que, se jogar mal tá fora do time, e do piloto de Fórmula 1 que, se dirigir mal pode morrer, a música popularesca gera muito dinheiro pro mercado mesmo que o artista seja ruim. Não é à toa que todo mundo se diz artista, não precisa ser, só precisa parecer.

Gmusic | Rockarama
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