Armored Saint em São Paulo: lágrimas de um fã

Quinteto americano sacia fãs que esperavam pela apresentação do grupo há pelo menos duas décadas

Por: João Messias Jr.
Fotos: Leandro Cherutti

Armored Saint e Hellish War
03/06/2018, Fabrique Club, São Paulo/SP

Nesses 26 anos de janela nessa vida de heavy metal, presenciei centenas de apresentações dos mais variados estilos. Porém, o que aconteceu nesse gélido domingo (3) de junho foi algo que não ficou apenas na mente, mas no coração. Minha relação com o Armored Saint teve início quando o vocalista John Bush ingressou no Anthrax, em 1992. Como não havia as facilidades da internet, o lance era partir para sebos e bancas de discos para coletar materiais. Nessa, adquiri “Symbol of Salvation”, quarto álbum do grupo, lançado em 1991. Ali se iniciou uma paixão não apenas a esse trabalho, mas a tudo que se referia a esta banda americana de heavy metal. No fundo, sempre houve a vontade que o grupo se reunisse, gravasse materiais e viesse ao nosso país para realizar esse sonho. Gradativamente tudo se realizou, com uma verdadeira celebração do metal na Fabrique Club, em São Paulo (SP), que mostrou ser uma ótima escolha para o show.

Quem esperou mais de duas décadas, não seria trabalho nenhum esperar mais algumas horas para assistir ao som dos americanos. Assim, antes dos anfitriões, a festa contou com a banda campineira Hellish War que, às 19h10, entrou em cena já com uma boa quantidade de fãs na casa.

Donos de um poderoso metal tradicional na linha do Running Wild, mas que flerta com a NWOBHM em vários momentos, Bil Martins (vocal), Vulcano (guitarra), JR (baixo) e Daniel Person (bateria) aqueceram o público com um som pesado, grudento e com boa qualidade saindo dos PA’s. Em pouco mais de meia hora, o mesclaram faixas dos três trabalhos de estúdio – “Defender of Metal” (2001), “Heroes of Tomorrow” (2008) e “Keep It Hellish” (2013). E se saíram bem! As músicas de destaque foram a abertura com a contagiante “Keep it Hellish”, além de “Defender of Metal” (dedicada aos presentes e ao vocalista do Grim Reaper, Steve Grimmett, que estava presente) e “We are Living for the Metal”.

Bil Martins (Hellish War) | Foto: Leandro Cherutti
Bil Martins (Hellish War) | Foto: Leandro Cherutti

Sem muitas firulas e com os próprios músicos afinando seus instrumentos, a espera para a entrada do Armored Saint foi curta. Assim, precisamente às 20h05, John Bush (vocal), Phil Sandoval e Jeff Duncan (guitarras), Joey Vera (baixo e vocal) e Gonzo Sandoval (bateria) começaram o set com a vencedora “Win Hands Down”, faixa-título do mais recente álbum de estúdio do grupo, de 2015. O som nítido, pesado e poderoso mostrou a faceta do grupo em relação aos seus pares de estilo, além da facilidade de transitar entre as vertentes sem perder a essência. Isso sem contar o refrão, cantado por todos na casa, com a banda bem próxima ao público.

“March of the Saint”, do disco homônimo de 1984, levou os presente à primeira viagem aos anos 1980. Porém, a execução de “Tribal Dance”, do citado “Symbol of Salvation” (1991), pode ser apontada como o primeiro ápice da noite. A levada tribal, feita antes de tudo virar moda e o refrão grudento, levaram muitos às lágrimas (inclusive, este que vos escreve), por não acreditarem que a banda estava lá. E mandando muito bem, em especial Bush, que, apesar de preferir manter os tons médios, teve uma atuação fabulosa.

“Revelation” (2000), álbum do primeiro retorno do grupo, foi representado por “After Me, the Flood”. Moderna, atemporal e de refrão forte, passou bem o recado. Voltando aos anos 80, “Delirious Nomad” (1985) foi visitado por meio de “Nervous Man”, dona de um jeitão Judas Priest contagiante. Esta abriu caminho para o hit “Last Train Home”, um daqueles tesouros musicais que, em mãos competentes, mostra que a fórmula ‘refrão-ponte-estrofe-refrão’ gera clássicos.

John Bush (Armored Saint) | Foto: Leandro Cherutti
John Bush (Armored Saint) | Foto: Leandro Cherutti

Porém, a festa estava longe de acabar. Após uma rápida enquete com os fãs veio “Raising Fear”, do homônimo de 1987, que foi emendada com “Symbol of Salvation”. Após sua execução, o nome do grupo foi aclamado pelos presentes, que compareceram em bom número, mas não lotaram o Fabrique Club – o Armored Saint estava provando que fazia por merecer casa cheia!

A contagiante “Book of Blood”, de “Raising Fear”, e a pesadíssima “Mess” (com destaque para a condução de Gonzo), de “Win Hands Down”, não deixaram o pique cair, mas a lenta “Aftermath”, de “Delirious Nomad”, foi outro momento de estratosfera do show.

Bush, que cantava na lateral da Fabrique, foi para a galera, o que comoveu os presentes, que celebraram o momento com o músico. Sem patifaria e palhaçada, por sinal, retribuindo o respeito da banda com os fãs. A visceral “Left Hook from Right Field”, de “La Raza” (2010), não deixou a peteca cair e antecedeu as ‘saideiras’ da noite.

Joey Vera (Armored Saint) | Foto: Leandro Cherutti
Joey Vera (Armored Saint) | Foto: Leandro Cherutti

O clássico absoluto “Reign of Fire”, mais uma do “Symbol of Salvation”, mostrou o carinho dos brasileiros por esse trabalho. Porém, as antigas “Can U Deliver” e “Mad House”, ambas de “March of the Saint”, coroaram esse que, para mim e muitos dos presentes, foi o show do ano (e olha que estive no Rage e Saxon). Uma apresentação que mesclou carisma, coesão e unidade, com Bush sempre interagindo com o público e os músicos executando cada nota com paixão – o modo prazeroso com que Joey Vera toca e canta chega a emocionar.

A despeito de tudo isso, os últimos fãs que ficaram na casa após a apresentação tiveram a oportunidade de tirar fotos com os músicos e autografar seus materiais – e olha que o ‘meet and greet’ oficial já havia rolado antes. Isto é algo que nos faz crer que, em meio a esse profissionalismo, existe humildade e hombridade, nos deixando na esperança de assisti-los mais algumas vezes. Com mais público, simplesmente porque a banda tem qualidade e fez por merecer.

No meu caso específico, um sonho realizado. Sim, eles acontecem quando menos se espera. Assim, um quarentão foi às lágrimas feito um adolescente…

Gonzo Sandoval (Armored Saint) | Foto: Leandro Cherutti
Gonzo Sandoval (Armored Saint) | Foto: Leandro Cherutti

1. Intro – Win Hands Down
2. March of the Saint
3. Tribal Dance
4. After Me, the Flood
5. Nervous Man
6. Last Train Home
7. Raising Fear
8. Symbol of Salvation
9. Book of Blood
10. Mess
11. Aftermath
12. Left Hook From Right Field
13. Reign of Fire
14. Can U Deliver
15. Mad House

Jeff Duncan e Phil Sandoval (Armored Saint) | Foto: Leandro Cherutti
Jeff Duncan e Phil Sandoval (Armored Saint) | Foto: Leandro Cherutti
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