O guitarrista e fundador do Slayer fala saudosamente sobre suas influências e criações, além de promover “Repentless”, o décimo primeiro álbum de estúdio

Slayer ao vivo | Foto: Fernando Pires

Qualquer fã de heavy metal já deve ou ainda vai berrar “Slayer” ao louvor de seus pulmões em qualquer show que esteja. A banda americana de thrash metal, que passou novamente pelo Brasil em maio, deixando uma legião de fãs surdos e roucos durante o Maximus Festival, é famosa pelos seus riffs memoráveis e uma agressividade pioneira, sendo a porta de entrada para muitos novos ouvintes a conhecerem o mundo submerso do metal extremo. Tendo aguentado a dois baques brutais, como a morte de seu guitarrista original, Jeff Hanneman, e a saída do exímio baterista Dave Lombardo no mesmo ano, o grupo ressurgiu com um novo álbum graças às rédeas curtas e punho firme de Kerry King.

Com a primeira vez trabalhando com o produtor Terry Date e com a influência (recente) de Gary Holt, você acredita que “Repentless” foi um novo “respirar” para o legado do Slayer?
Kerry King: Gary é um grande amigo, ele sempre foi minha primeira escolha, e, com sorte, conseguiu pular no barco e tocar conosco desde então. O nome de Terry Date veio da lembrança por ele ter produzido álbuns do Pantera, e é até engraçado eu não ter trabalhado com ele antes. Nós não lançávamos algo há anos, Terry não produzia nada algo grande há anos, então acho que foi uma boa combinação, e penso que ele fez um ótimo trabalho.

Kerry King ao vivo | Foto: Fernando Pires

A junção dos clipes em uma Graphic Novel seria o passo mais lógico. Eu amei o produto final e, se os fãs gostarem, com certeza faremos mais” – Kerry King

Antes do término de “Repentless” (2015), você sentia que ele teria uma pegada à la “Reign In Blood” (1986), mas com o lançamento e a entrada para a turnê, acredita essa expectativa foi alcançada?
King: Com certeza em “Repentless” há riffs de 20 anos atrás! (risos) Eu sei que “Reign In Blood” é mais velho que isso, mas eu acho que qualquer fã de Slayer, seja em qual fase for, vai achar algo no álbum que irá gostar.

Você tem gravado partes de riffs e esqueletos, então?
King: Ah, sim! Eu tenho alguns cassetes com gravações, porque era a única forma de se gravar algo na época, e dali eu desenvolvia esse riffs. Fiz isso até o “World Painted Blood” (2009). Era difícil achar os riffs, já que é uma fita de quarenta e cinco minutos cheia de pedaços de riffs com, no máximo, trinta segundos (risos). Depois, consegui passar tudo para o meu celular.

Indo de massacres na prisão a matar neonazistas, como foi a elaboração da história dos videoclipes e, posteriormente, da HQ?
King: A Nuclear Blast tem laços com a Dark Horse Comics, então a junção dos clipes em uma Graphic Novel seria o passo mais lógico. Eu amei o produto final e, se os fãs gostarem, com certeza faremos mais. Sobre os vídeos, todas as ideias foram do diretor BJ (McDonnell). Claro que fizemos primeiro o clipe de “Repentless” e, à medida que deixamos Terry ser o produtor, eu deixei BJ ter a sua visão. Eu dava uma olhada e dizia “isso está bom”, mas eu não interferia mais do que isso e não tocava nas filmagens. Seriam três vídeos, e os dois seguintes seriam para faixas “Vices” e “Take Control”, mas ele disse: “Bom, eu tenho umas ideias para ‘You Against You’ e ‘Pride and Prejudice’.” Falei para ele ir fundo, pois eu vi as visões dele sobre as músicas e eram incríveis! O meu favorito dos três é o de “Pride and Prejudice”, mas também curto massacres em prisões (risos). Eu realmente me impressionei como ele conseguiu fazer uma história completa com os três clipes.

Gary Holt, Tom Araya e Kerry King | Foto: Fernando Pires

Há algo que eu sempre digo: Glenn Tipton (Judas Priest) é um dos guitarristas mais subestimados de sua geração” – Kerry King

Numa entrevista, Tom Araya (vocal e baixo) disse que imitava os Beatles na frente do espelho quando pequeno. Você fazia o mesmo? Quais eram suas influências, tanto no metal quanto fora dele?
King: Uma que faz sentido, mas não é metal, é Eddie Van Halen (Van Halen) em seus primeiros álbuns, quando eles eram uma banda de hard rock e não ‘pop’ (risos). Eddie elevou o nível de tocar, mas há algo que eu sempre digo: Glenn Tipton (Judas Priest) é um dos guitarristas mais subestimados de sua geração. Ele foi um dos primeiros a fazer o que todos os grandes guitarristas iriam fazer décadas à frente, e tudo isso abaixo do cantor! Ninguém dava atenção ao que ele fazia, mas eu dava, e ele foi uma inspiração muito grande para mim.

Antes de começar a gravar, você tem costume de ouvir álbuns que o inspiram, como do Venom, Judas Priest, entre outros. Além destas bandas, há outras novas que o motivam ou que escuta?
King: Na maioria das vezes eu só escuto coisa velha, porque eu conheço e sei que não vai transparecer nas minhas músicas. Se são coisas antigas, que tenho familiaridade e sei que não vou deixá-las passar; se escuto algo que faz tempo que não ouço ou é novo, acabo reproduzindo sem perceber. Um exemplo é o que quase aconteceu na introdução do “Repentless”. A faixa “Delusions of a Saviour” era muito similar à música “Damage Inc.” (Metallica), o que foi um susto e eu acabei mudando para algo diferente. Então, sempre procuro manter certo cuidado. Há coisas que eu sei que, mesmo novas, não vão influenciar nada. Sabe o que eu estava ouvindo ontem? (risos) Bem, estava vendo uns vídeos no YouTube e apareceu um da banda Heart nos recomendados, então acabei vendo músicas do Heart a noite toda (risos). Eu estava impressionado… Meu Deus, como aquela desgraçada canta bem (risos). Há uns dias eu tive uma fase bem ‘Ritchie Blackmoriana’ escutando Rainbow e até Deep Purple. Achei uma gravação da música ‘Burn’ de 1974, e era fantástico… Glenn Hughes detona e eu recomendo fortemente (risos).

Era antes do famoso show do “California Jam”? É a sua formação favorita do Deep Purple?
King: Eu não sei, fiquei tão entusiasmado que nem chequei, mas mandei para todos os meus amigos (risos). Mas eu não sei, todas as formações são boas. Eles tiveram ótimos vocalistas, especialmente a descoberta do (Ronnie James) Dio pela mulher de Blackmore!

A precisão de Gary Holt | Foto: Fernando Pires

Acho que o Big Four não vai acontecer (…) O caso é que o Metallica não precisa da gente, eles conseguem lotar estádios por conta própria” – Kerry King

Com Jeff Hanneman houve sempre uma técnica que admiro: a inspiração das guitarras-gêmeas do Judas Priest em solos. Agora com Gary Holt, houve alguma adaptação quando ele começou a tocar com você ou foi algo natural?
King: É muito similar. Eu nem tenho Gary no meu retorno, pois sei que ele não está fazendo merda (risos). Sei que ele está tocando bem, que não irá fazer nenhuma loucura, e a única coisa que tenho no retorno sou eu e Paul (Bostaph), mais para saber o ritmo. Mas ter o Gary no palco é como se tivesse outro eu – quando ensaiamos, até paramos juntos. Um complementa o outro e temos uma ótima harmonia. É engraçado, pois quando eu e Jeff (Hanneman) ensaiávamos eu nem pensava nisso, mas com Gary eu comecei a prestar mais atenção e percebi o quão similar nós somos. Às vezes, acho que ele não está tocando, mas ele está me acompanhando nota por nota (risos). Estamos em sincronia!

Ultimamente surgiram rumores de uma nova reunião do “Big Four” (Slayer, Metallica, Anthrax e Megadeth), mas você acha que poderia acontecer novamente?
King: Acho que não vai acontecer, mas não por culpa nossa (risos). O caso é que o Metallica não precisa da gente, eles conseguem lotar estádios por conta própria. Na primeira vez que fizemos o “Big Four” eu fiquei muito empolgado, achei que seria algo ótimo para os fãs. Fui me empolgando cada vez mais e, quando continuamos a fazer a turnê pela Europa Ocidental, superou minhas expectativas de voltar a entrar em contato com o Metallica. Não esperávamos nada, então foi uma surpresa agradável quando conversávamos com Lars (Ulrich) e Kirk (Hammett). Não vimos muito James (Hetfield), mas mesmo assim foi muito divertido, inclusive vê-los tocar todas as noites atrás daquele pano antes do kit de Lars. Eu queria muito que acontecesse, mas eu tenho quase certeza que não irá.

Fenriz, vocalista e multi-instrumentista da banda norueguesa Darkthrone, além de outros membros da polêmica cena norueguesa de black metal, sempre louvaram o álbum “Show No Mercy” (1983) e o apontam como uma influência. O que você acha daquela cena e dos crimes ocorridos por ela?
King: Apesar de eles terem sido influenciados por bandas que também nos influenciaram, como Mercyful Fate e Venom, não é um subgênero que me agrada. Quanto aos crimes, eu acho que quando você começa a cometer atrocidades para se tornar maior em certa comunidade, sei lá, não serve pra mim! Eu tiro sarro de qualquer forma de governo, mas eu não vou propagar revoltas para as pessoas se matarem, apesar de termos sido culpados por isso algumas vezes. Eu acredito que música é entretenimento e, para alguns, eles poderiam até estar ouvindo Madonna e usar isso para sair e matar gente. Não é o rock, não é o heavy metal e nenhum outro estilo musical que faz as pessoas despirocarem. Pessoas assim já têm um parafuso a menos e qualquer coisa pode fazê-las explodirem.

Para encerrar, como fica a sua gigantesca coleção de cobras enquanto está em turnê?
King: Eu não cuido mais delas, infelizmente. Eu parei há cerca de três ou quatro anos, porque nos anos 90 eu gastava mais tempo com esse hobby do que com o Slayer em si, e então eu vendi tudo. Mas logo depois eu acabei voltando ao hobby porque eu realmente amo cobras, mas agora eu não cometo mais o mesmo erro. Quando cada uma delas começou a produzir sete a oito filhotes por ano, eu contratei um cara para cuidar delas (risos).

Slayer: Paul Bostaph, Tom Araya, Gary Holt e Kerry King | Foto: Martin Häussler
Slayer: Paul Bostaph, Tom Araya, Gary Holt e Kerry King | Foto: Martin Häussler
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