O dia de 25 horas

Ao invés de dizer “Não consigo fazer isso”, pense “Como faço para chegar nesse resultado?”

Chame seus medos de 'aventura'" e você vai sempre descobrir algo sobre você | Ilustração: André Meister
Chame seus medos de 'aventura'" e você vai sempre descobrir algo sobre você | Ilustração: André Meister

Recebi a notícia de que um dos meus alunos ia parar de ter aulas comigo porque sua casa foi assaltada. Os ladrões invadiram, quebraram janela, levaram várias coisas exceto, por sorte, seu computador. Tendo que passar alguns dias na casa do pai e com novas contas para pagar, ele estava pensando em dar uma pausa temporária não só nas minhas aulas, mas, também, em um projeto que começou há um tempo, sobre o qual, como professor, posso dizer: nunca o vi tão animado sobre qualquer outra coisa.

Conversei um tempo com ele sobre uma coisa que aprendi sobre a vida. Todo mundo quer alguma coisa. Algumas pessoas não querem necessariamente ter sucesso e serem milionárias, mas, mesmo assim, buscam alguma coisa. Pessoalmente me considero ambicioso no que faço, e muitas vezes sou acometido por medo de falhar, ou pela ideia de que o que quero é grande demais para abraçar. Especialmente com problemas que vão acontecendo ao longo do tempo. Fim de relacionamento, brigas e disputas familiares, falta de dinheiro, entre tantas outras coisas. Parece que sempre temos uma boa desculpa para não ir atrás do que gostamos. É no mínimo razoável dizer “não consegui me concentrar no meu projeto pelo fato de não ter tido tempo”; “Acumulei bastante trabalho, e não vou ter tempo de realizar tudo”; “Preciso dar prioridades. Tenho uma empresa.”

Ninguém pode dizer que isso é fora do normal, ou que uma pessoa assim tenha preguiça ou medo de vencer. Daí, passamos uma parte da vida esperando um momento oportuno, uma situação favorável, um hiato caído do céu para fazermos. Porém, o que normalmente escuto nessas raras situações? “Ah, eu passei esse tempo livre procurando mais trabalho, porque sabe como é. Está difícil ultimamente”. Quem que leu até esta frase não se identifica com isso?

Ninguém que leva a sério o que faz tem desculpas ‘ilegítimas’. A questão é que a gente fica esperando pelo “dia de 25 horas”. Funciona da seguinte forma: um dia tem 24 horas. Se você começa a pagar um curso, se dispõe a fazê-lo por 2 horas semanais. Você remaneja seu dia simplesmente porque não tem como estar fisicamente em dois lugares ao mesmo tempo – ao menos eu tentei e não consegui…

Mas, e quando você precisa estudar ou fazer qualquer coisa para responder às expectativas do curso que você faz, normalmente? Você enfia onde dá tempo, aquele tempo que precisa dispensar. Ou dorme menos, ou sacrifica um momento, ou fica aquela coisa de toda semana você não se aprontar, e ficar naquele desânimo porque não evoluiu. Aí, finalmente, desiste do curso.

Isso não vale só para curso. Vale para projetos pessoais, para o dinheiro que você guarda para um investimento, para aquelas férias que quer tirar. É muito fácil dizer “eu preciso emagrecer”, o problema é pegar a rotina da academia, ou propor uma adaptação alimentar. Inconscientemente, tentamos colocar isso num espaço fora do nosso normal, para não ter que mudar a nossa rotina. E isso se torna a vigésima quinta hora que não existe.

Agora, pense na última vez em que você teve que se readaptar a um trabalho muito grande, de longo prazo. Na primeira semana realmente deve ter sido difícil, mas o que aconteceu por volta das últimas semanas? Parece que houve um estabelecimento de rotina. Lembra da máquina de resolver problemas, o cérebro? Pois é. Ela ataca novamente. Uma ferramenta plástica que adaptou suas necessidades às 24 horas. Algumas coisas foram remanejadas, outras tiveram que ficar mais rápidas. Você foi obrigado a isso, foi tirado do seu conforto. Por causa disso, você teve que se forçar a ser mais eficiente em certos aspectos. A questão é que você não prestou atenção porque foi uma resposta automática.

Agora, se é capaz de fazer isso na necessidade, fora dela, não é para ser essencialmente difícil. É uma questão de entender que temos objetivos e que eles precisam dessa adaptação. A vida não vai parar de jogar bolas com efeito na gente, e bolas com efeito são sempre complicadas de agarrar. E se você, ainda assim, está dando desculpas, pensar olhando para trás pode ajudar. Ou para frente. Deixe-me explicar.

Pensar para trás, entendendo o quanto você poderia ter feito se tivesse realmente separado um espaço razoável para “seu projeto”. Num mundo onde tudo é para ontem, é difícil dispensar 1 hora por dia para seu projeto ou se perder em perfeccionismos e demorar um bocado. E aí vem aquela frustração: “Puxa, se eu tivesse treinado esses 4 anos, eu poderia ter chegado à faixa preta hoje”; “Nossa, se eu tivesse estudado mais anatomia, podia ter pegado o emprego naquele estúdio que sempre quis. Eu até sei fazer o que pedem, mas não tenho material para apresentar.”

Pensar nas oportunidades que a gente perde por se preocupar demais, ou não se adaptar, é eficiente no ponto de vista de que você tem que adaptar-se para evitar esse sentimento ruim que virá novamente sob outros aspectos, num futuro próximo.

Agora, olhar para frente, tem outra força. Bem mais forte e assustadora. Lembra que o medo é uma ferramenta? Use-o a seu favor. Como? É só lembrar de uma coisa que acontece com todos…

Você vai morrer um dia

Pense que em média, hoje, um brasileiro saudável vive até 75 anos. Quando pensamos nisso, normalmente vem aquela idéia de que uma pessoa dessa idade já fez muita coisa. Façamos um esforço criativo: pense em si, e conte quanto tempo falta para chegar lá… Se você tem 20 anos, falta pouco menos de 3 vezes o que você viveu. Você considera que viveu muito? Se você tem 40, 50, você já passou da metade da sua expectativa de vida.

Claro, você colocar dessa forma pode parecer extremamente pessimista. Mas considere o primeiro ponto, em que você perdeu tanto tempo deixando de lado com seu dia de 25 horas. Esse desespero que dá pensar nessa conta macabra. Agora pense nas coisas que quer conquistar. Dá outro patamar, não?

Como bônus, é essa a força que o medo tem. Eu já disse antes, mas repito: é uma bússola que indica onde está a real importância da nossa vida. O que é importante de verdade revela-se na face da morte. É a maneira mais eficiente de se nortear.

Terminei minha conversa com meu aluno falando a respeito dessa ideia de que a vida passa essas “rasteiras” na gente, mas que prefiro pensar em bolas com efeito. Essas são feitas para que aprendamos a pegá-las. Mas aprender não é uma coisa feita da noite para o dia.

Então, adapte-se. Passe a moldar seu próprio pensamento. Ao invés de dizer “Não consigo fazer isso”, pense “Como faço para chegar nesse resultado?”. Meu aluno tem um emprego. Ele tem o que muitos chamariam de “segurança”. No entanto, ainda assim, a vida trouxe uma situação difícil para ele.

Você não vai ganhar magicamente a vigésima quinta hora, e seu hiato oportuno não vai acontecer do nada. Mas você pode adaptar-se aos poucos. Dez minutos por dia, fazer aquelas anotações do seu projeto antes de sair para o trabalho, que semana que vem tornam-se 20 de pesquisa na internet, 30 de estudo e elaboração de cronograma, e assim por diante. Logo você consegue um espaço para dar vida a seu projeto. E o bom é que isso você sabe que, acima de tudo, o que faz vale a pena. Porque é algo que tem sua voz, seu estilo e seu carinho.

A vida não pára, mas acredito muito que temos que viver, e não apenas existir.

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